abril 28, 2012

Alfas GTAm em Angola - a crônica de uma aventura

Por António Peixinho

"Depois de mais um almoço em que estiveram presentes o meu "ghost writer", o amigo José Lampreia (que aguentou 15 minutos sem fumar) e eu próprio, decidi esclarecer de uma vez por todas a história dos Alfas GTAM em Angola, bem como a participação que a Autodelta (departamento de competição da Alfa Romeo) teve em toda esta aventura.

Uma raridade. O Alfa Romeo GTAm ex-Peixinho, a cores.
Tripulado por Jaime Melo em Novo Redondo 73


O primeiro Alfa GTAM encomendado pela Socoína, em 1969, não era de facto um GTAM. Era antes um carro que utilizava a carroceria de um 1300 a que DEPOIS se juntou um motor 2 litros. Estas carrocerias tinham apenas 2 faróis na frente, como se sabe, e eram feitas de alumínio.
O falso GTAM chegou a Angola na véspera do circuito de Luanda de 1969, o qual ficaria tragicamente marcado pelo terrível acidente que vitimou Andrade Vilar e alguns espectadores. Não houve tempo para treinar e muito menos para proceder a quaisquer afinações, pelo que só durante a corrida me apercebi que os travões instalados eram de série, tal como a suspensão. As pastilhas e as bombas eram normalíssimas, pelo que perdi a capacidade de travagem a meio da corrida. Grande "barrete" que a Autodelta pregou à Socoína. Mais tarde o sistema de travagem foi melhorado pelos nossos técnicos, tal como as barras estabilizadoras e as jantes.
O segundo carro encomendado foi o que se vê na fotografia (abaixo), um verdadeiro GTAM, versão cliente, cuja carroceria derivava directamente dos Alfa 1750 ou seja, tinham 4 faróis na dianteira.
 Piloto ? Local ? Data ?

Um outro GTAM , pintado de vermelho e branco, foi comprado ao importador sul africano, Arnold Chatz, que o tinha preparado de forma altamente profissional e que era, de longe, o mais competitivo dos Alfas que estavam em Angola, não só pelo desempenho do seu motor mas também pela qualidade da suspensão.
Como se viu, a Autodelta não tinha grandes preocupações em relação à qualidade do material que vendia para Angola e isso causava alguns embaraços ao comprador, uma vez que o material era pago antecipadamente e uma vez consumada a entrega já pouco ou nada se podia fazer.
 

No que respeita ao Alfa 33, também existe uma história para contar.
Fui eu próprio a Milão experimentar um dos carros que a Autodelta tinha para venda. Estava impecável, funcionava perfeitamente, pelo que logo formalizei a encomenda, pagando a totalidade do preço pretendido.
Quando o carro chegou a Angola verificamos que não se tratava do mesmo Alfa 33 que eu tinha testado em Milão, uma vez que o habitáculo era bem mais pequeno (tinha sido feito para Nino Vacarella, que tinha baixa estatura) do que aquele que eu tinha conduzido no teste. A minha posição de condução ficou extremamente desconfortável, com as pernas dobradas e o corpo "torcido", e isso reflectia-se nos tempos por volta. Quanto ao motor - e apesar de termos ao nosso serviço, em permanência, um mecânico da Autodelta - o mesmo só trabalhou razoavelmente nas 6 Horas de Nova Lisboa de 1970, que venci, e numa outra corrida no Lobito. O motor teve problemas em todas as outras corridas, pois falhava às 7 mil rotações quando era suposto atingir as 9 mil rpm sem quaisquer dificuldades. Quando falhava, a única forma de recuperar o seu funcionamento era desligar e voltar a ligar a ignição. Uma trabalheira e um desconforto. Além disso, o carro era "pesado" e difícil de conduzir. E caro. Lembro-me que uma vez tivemos que substituir as 16 velas Bosch ( 2 velas por cilindro, dupla ignição) e que a "brincadeira" nos custou nada menos que 100 contos, ou seja, o preço de um Alfa Romeo de série naquela época.
Esta é a verdadeira (enfim, mais coisa menos coisa...) história da aventura da Alfa Romeo em Angola, através da Socoína, durante a década de 60 e princípios de 70.
António Peixinho (com uma "mãozinha" do tal fantasma)".


*Para quem não sabe, o Ghost Writer é José Guedes. 

"Esta foto é de Benguela, na Praia Morena, junto á esplanada do Porta Aviões.(1970 em príncípio)". Comentário de Antonio Almeida.

"António Peixinho no Alfa Romao GTAm da Socoína.Possivelmente esta foto terá sido feita no Autódromo Internacional de Luanda em 1972". Comentário de Ricardo Duarte Kadypress


 António Peixinho com Alfa Romeo GTAm em Benguela, 1973

Benguela 1973. Peixinho em Alfa Romeo GTAM seguido do Porsche 906 de Herculano Areias

Luanda 1969, Peixinho em luta com o BMW de "Nicha" Cabral

"Luta de classes". O mecânico Santos Peras lidera o piloto António Peixinho em Novo Redondo, 1971.

Benguela, 1970. Vitória de Peixinho com o Alfa GTA, tendo obtido também a "pole position". "Nicha" Cabral, em BMW 2002, ficou em segundo nos treinos e abandonou durante a corrida.

"IV Circuito das Festas do Mar/ Moçâmedes, 15-03-1970. Os protagonistas são,"ora passo eu, ora passas tu" os eternos rivais que incendiaram Angola com as suas magníficas disputas: António Peixinho (Alfa Romeo GTA) e Mario Araújo Cabral "Nicha" em BMW 2002 Ti Schnitzer". Comentário de Ricardo Duarte Kadypress

Huíla, Angola 1972. Após as "3 Horas da Huíla", Peixinho, Nogueira Pinto, Christine Beckers e mais alguns amigos partiram para umas merecidas férias numa reserva de caça privada. Não havendo nenhum jipe disponível, houve necessidade de recorrer ao Alfa de ralis para transportar as armas.




"Catch me, if you can". Benguela 1970
Depois de ter feito o melhor tempo nos treinos, Peixinho venceu a corrida, com o Alfa GTA. Nicha Cabral, em BMW 2002, nunca conseguiu ser mais rápido, e acabou por abandonar a prova com problemas na bomba de injecção.
O original desta fotografia foi oferecido, com dedicatória, a Marco Pestana, um grande entusiasta da Alfa Romeo residente na Madeira.


Fotos e cometários: Facebook de António Peixinho


Alfa Romeo GTAm - Piloto ? - 3 h Internacionais de Luanda - 1973 

Foto: Manuel Lara

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